“Se alguém perguntar por mim, diz que fui por aí ...”


Que a vida é cheia de sons e fúria todo mundo sabe. O estranho é que sempre me lembro das coisas que se passaram em minha vida com uma espécie de trilha sonora. Os momentos que antecederam a minha viagem para São Paulo é um bom exemplo disso.

Poucas horas antes de partir, enquanto esperava o carro da empresa vir nos buscar para levar ao aeroporto, fiquei deitado com minha noiva, bastante aconchegado, aproveitando cada segundo ao lado de minha amada, afinal, não sabia quanto tempo passaria para eu vê-la de novo. Ali, no escuro do quarto, no calor dos corpos a música “I Know It's Over” dos Smiths, martelava minha cabeça com os versos sufocantes “I know it's over - still I cling / I don't know where else I can go ...”¹ na voz sarcástica de Morrissey .

A hora chegou, com o carro buzinando em frente à casa. One, two, three, four! Era o coração que batia tal qual a bateria frenética dos Ramones, com o mundo desabando em meus ouvidos, juntando baixo, guitarra e Joey Ramone gritando “Hey ho, let's go”, embalando a despedida, atando o nó na garganta enquanto via o amor da minha vida ficando distante pelo retrovisor do carro e ouvindo os versos de “She's the One” que diziam: “Yeah yeah she's the one / Yeah yeah she's my girl / When I see her on the street / You know she makes my life complete.”²

Tão rápido quanto o Punk Rock dos Ramones chegamos ao aeroporto. Foi quando atentei para um pequeno detalhe: eu nunca havia voado de avião. O lapso de agorafobia me ocorreu quase que imediatamente, lá ia eu sentir a velha vontade incontrolável de sair correndo. Mas já não tinha jeito, estávamos no check-in e a fila andava para o embarque. Não era “Road Trippin'” mas eu tinha a nítida impressão que Anthony Kiedis cantava “It's time to leave this town, it's time to steal away”³.

Aos tropeções e já sentindo saudades antes de partir, cheguei ao meu assento no avião. Eu realmente estava muito nervoso, ou melhor, sentindo um misto de sentimentos: nervosismo, tristeza, esperança, expectativa, tentando me conformar pensando que alguns objetivos, para serem alcançados, demandam sacrifícios, etc. Não sei quanto tempo passei nessas divagações, mas fui interrompido pela voz da comissária de bordo avisando que iríamos levantar vôo e que era necessário apertar os cintos.

Não havia mais o que fazer. Só restava recostar a cabeça no assento, esperar pelas 03 horas e meia de viagem e pagar para ver o que o destino me reservava. Peguei os fones de ouvido que estavam no banco para ouvir um som. Enquanto a cidade que passei 30 anos de minha vida ficava para trás, no canal de áudio do avião Nara Leão cantava em meus ouvidos os versos: “Se alguém perguntar por mim / Diz que fui por aí... / Se quiserem saber se eu volto / Diga que sim / Mas só depois que a saudade se afastar de mim.”



Tradução livre:

¹ Eu sei que acabou, ainda assim me agarro. Não sei mais onde eu possa ir.

² Yeah, yeah, ela é a única / Yeah, yeah, ela é minha garota / Quando eu vi ela na rua / Sabe, ela deixou a minha vida completa.

³ É hora de sair desta cidade, é hora de sair de fininho.

Complexo de Greg Focker


É chato quando você se esforça para agradar a terceiros. É desconfortável ficar neste papel de querer fazer tudo para agradar, para ser aceito. E, mesmo você sendo uma pessoa boa, que tem família, educação, ainda assim é visto com desconfiança, como um forasteiro.

Unhappy Birthday

Eu nasci às 17:50 h de um certo 20 de julho de 1981. 30 anos depois, nesta mesma hora, eu tinha chegado em casa depois de ter passado o dia numa praia próxima a minha cidade com minha noiva. Só. A só isso se resumiu a comemoração do meu aniversário de 30 anos. Não teve bolo, nem presente, nem mesmo aqueles recado nas redes sociais.

Por isso que o ditado popular é certo: “Amigos é a família que a gente tem a oportunidade de escolher”. A única pessoa que lembrou do meu aniversário e ligou me parabenizando foi o meu primo e melhor amigo. Nem meu pai, nem meus irmãos tiveram a coragem ou a falsidade de me dar um abraço ou felicitações pelo telefone. Ainda mais hoje em dia que uma ligação custa míseros centavos.

30 anos é uma data significativa, e eu que não faço muita questão de presentes, só queria um: assim como o robô David, do filme Inteligência artificial, poder ter tido a chance de passar essa data com a minha mãe, mesmo sabendo que seria só por um dia e que no final desse dia sua existência desapareceria para sempre.

Enfim, tenho 30 anos agora, e um caminho longo pela frente. Estou em busca dos meus objetivos, afinal quero ter uma vida confortável com minha mulher e filho, tão feliz quanto um comercial de margarina.

Je suis retourné


Faz um tempão que não posto nada aqui no Blog. Para ser mais exato, desde 2009. Um longo hiato, dentro do qual aconteceu um monte de coisas na minha vida.

Dezembro de 2009. Final de ano de encontros e despedidas. Encontros, porque nesse mês encontrei a mulher que sempre amei mas nunca tinha visto. Despedidas, porque foi o último Natal/Ano Novo que passei com a minha mãe. Nos fins de 2009 furei a orelha e coloquei um brinco alargador.

2010. Um ano bastante antitético em minha vida. Em Fevereiro comecei oficialmente a namorar com a minha noiva. Em Março a saúde de minha mãe começou a chegar ao fim. Em Abril, os médicos descobriram um tumor em sua medula, e não havia muito a fazer. Em Junho minha mãe se foi.

Minha casa ficou enorme sem a Dona Ana. Silenciosamente triste sem as brincadeiras, sem o cheiro do café recém-passado, sem os barulhos de passos pela casa de madrugada e sem a voz rouca e elegante de fumante.

Em 2010 descobri o quanto o destino é cruel e generoso. Quid pro Quod. Ao mesmo tempo em que tive que me acostumar com a idéia da perda inevitável da primeira mulher que amei, fui me atando em laços invisíveis e cada vez mais profundos com a mulher que eu amo e com a qual quero viver a minha vida, tanto no pessoal quanto no profissional.

Depois da Tempestade vem a Bonança e 2010 chega ao fim. Mas depois da Bonança vem Tempestade também e em Maio de 2011 eu descobri, da maneira mais constrangedora possível, que as pessoas não nutrem um pingo de consideração pelo seu próximo, mesmo que sua orientação religiosa pregue justamente o contrário. Te amo, mano Caetano. "E eu sei que vou te amar, seja lá como for, portanto um beijo no seu lado super bacana”. Você lá e eu aqui.

Meu agora é daqui pra frente. Não sei quando irei, ou se irei postar algo novo, então, até lá.

Em nome do Filho

Pode parecer clichê o que eu vou escrever, mas é a mais pura verdade, a vida da gente muda completamente a partir do momento em que viramos pai ou mãe. E canções como “Dias de Luta” do Ira perdem totalmente o sentido, e outras vão fazendo completamente sentido, ou você vai lembrando na marra daquelas que a sua mãe cantava pra você dormir quando era pequeno e que agora – no meio da noite, seu filho resolve ficar acordado, brincando com os dedinhos do pé – você tem que cantar pra ele, na tentativa desesperada de fazê-lo dormir. É ... ser pai é um exercício de malandragem quando seu filho aos poucos vai crescendo e criando vontade própria.

É engraçado perceber que seu amor pelo seu filho vai crescendo à medida que ele vai crescendo também, e você vive uma verdadeira montanha russa de emoções, pelo menos foi essa a conclusão que eu cheguei neste pouco tempo em que estou exercendo a função de pai de primeira viagem, vejamos:


01. Quando o seu espermatozóide fecunda o óvulo da mãe do seu filho, você está com sua vida normal, tranqüilo, sem se preocupar com nada além das suas preocupações cotidianas ... até a menina perceber que sua menstruação está atrasada ...



02. Parabéns você vai ser papai !!! É deste ponto em diante que a sua vida nunca mais vai ser a mesma. E essa frase que te provoca um turbilhão na sua cabeça. Impacto, medo de não estar preparado pra ser pai, será que vai ser menino ou menina?, “Cara, eu vou ser pai!” (você diz pra si mesmo), “Mãe, pai vocês vão ser avós!” (você diz pros seus pais). Será que vou viver os 09 meses até meu filho nascer?. Dúvidas, dúvidas e mais dúvidas.


03. Certeza. À medida em que a barriga da mãe do seu filho vai crescendo, ficando grande, você vai também, proporcionalmente, tendo a certeza que ali dentro está crescendo junto um amor tão fantástico por alguém que você ainda nem viu o rosto. É menino... e ainda ter que esperar 05 meses pra poder ver o rosto dele. Nem sei como agüentei tanta curiosidade e preocupação. Morria de medo que o moleque resolvesse nascer de madrugada.



04. Nasceu. Você é oficialmente pai agora. Não sabia se ria, se chorava, se desmaiava, se amparava minha mãe pra não desmaiar ... Só sei que foi uma alegria tão grande, sem comparação, quando vi meu filho pela primeira vez e pude carregá-lo no colo, ainda quentinho, saído da forma.


05. Aprendizado contínuo. Daí pra frente, muitas noites em claro, muitas trocas de fraldas, muitas alegrias com cada pequena coisa que seu filho vai aprendendo conforme vai crescendo. Cada sorriso do seu filho é um bálsamo para sua alma e eleva infinitamente o amor que você sente por ele.

Meu filho se chama Ícaro. Sou pai dele há 02 anos e 04 meses, e assim como o da mitologia grega, parece que o moleque tem asas. Não se pode descuidar um segundo dele, que ele já vai arrumar artes. Se eu soubesse teria colocado um nome de santo nele ... Mentira, esse é o nome que eu sempre quis pro meu filho.


Nesses 02 anos e 04 meses a minha vida mudou completamente, eu deixei de ser o filho para seu o pai. Todas as preocupações e medos iniciais foram se dissipando e fui aprendendo na marra a criar responsabilidades e automaticamente evoluindo para que sirva de exemplo para o meu filho, assim como meu pai é exemplo para mim, porque, como diria minha avó: “Bom filho és, bom filho terás...”

O Efeito Borboleta

Sabe aqueles filmes que você assiste umas 500 vezes sem enjoar? Efeito Borboleta é um deles, e toda vez que vejo, percebo alguma coisa que não havia percebido das outras vezes.

Vi este filme, pela 1ª vez, no extinto Cinema que tinha dentro do Shopping Doca Boulevard. Deve ter sido um dos últimos filmes que passou lá antes do Shopping falir. Posso afirmar, com toda a certeza do mundo, este foi o melhor filme que já assisti. Sai dali perplexo com a idéia de que qualquer atitude que você tomar pode mudar muita coisa no seu futuro, tal como prega a Teoria do Caos.

Então, cuidado leitor, porque “o farfalhar das asas de uma borboleta pode causar um tufão do outro lado do mundo”. Esta teoria – a do Caos – está relacionada com toda a história do filme. E nada mais é do que o seguinte: pequenas decisões podem acarretar em grandes mudanças na nossa vida. Como diria Benjamin Button, “às vezes estamos numa rota de colisão e nós não sabemos. Seja por acidente ou intencional, não podemos fazer nada à respeito”. Mas, e se fosse possível mudar acontecimentos do passado?


Vamos, então, à história de Efeito Borboleta: Evan é um garoto que mora apenas com sua mãe, porque seu pai tem problemas psicológicos. O garoto tem vários amigos, como Lenny, Tommy e Kayleigh, a irmã de Tommy, por quem Evan desenvolve uma paixão.

Porém, Evan tem um certo problema: constantes falhas na memória. O médico que cuida de seu caso recomenda que, como forma de lembrar das coisas, ele comece a escrever um diário. Um dia, já adulto, ele descobre que tem o poder de controlar o passado através da leitura das páginas destes diários. Entretanto, manipular o passado não significa ter controle do futuro.

Ao longo do filme, a partir da leitura de trechos do diário, Evan vai voltando ao passado e preenchendo certas lacunas de alguns acontecimentos. Todas as vezes que o personagem volta ao passado é para tentar ajudar ou resolver o problema dos outros, porém as conseqüências são sempre catastróficas, verdadeiras rotas de colisão.

Efeito Borboleta apresenta algumas cenas, que na minha opinião são fantásticas e quero destacar:

Kayleigh prostituta - Excelente cena, quando os dois conversam numa lanchonete e ele fala que pode voltar no tempo, então ela cobra dele um monte de coisas, como ele ter esquecido dela.


Evan paraplégico - Outra cena muito boa. Numa das alterações do passado, Evan volta ao futuro, mas ele está paraplégico, andando em cadeira de rodas. Para piorar, Kayleigh está namorando com Lenny. Tommy não está agressivo, ele mudou radicalmente. Está tudo bem com os outros, apesar de Evan estar péssimo. No entanto, ele pensa nos outros... e acaba não voltando ao passado. Porém, ao descobrir que sua mãe está morrendo de câncer no pulmão, é que ele decide alterar as coisas novamente. Não é por ele, mas pela mãe dele.

Tomografia - São na verdade duas cenas, que estão ligadas. Uma no começo e outra no final. No início do filme, quando o Evan adulto faz uma tomografia o doutor examina a foto do seu cérebro e fala que é uma bobagem. No final do filme, após o Evan ter feito tantas idas e vindas, há uma cena parecida. Mas a tomografia está completamente diferente.

Em relação às atuações, todas são muito boas. Evan, Tommy, Lenny e Kayleigh, cada um tem três atores, que correspondem a três etapas da vida: infância, adolescência e adulto. Todos os atores, de todas as fases, interpretam muito bem. Ashton Kutcher (Evan adulto), inclusive, surpreende nesse filme. Mas quem realmente se destaca como atriz é a Amy Smart, que faz a Kayleigh adulta. Ela consegue convencer que é outra pessoa totalmente diferente, quando interpreta uma prostituta ou outras "versões" da Kayleigh.

Resumindo: eu recomendo Efeito Borboleta para todo mundo que gosta de assistir filmes inteligentes. É um filme que nos faz pensar na vida e em como é caótico os caminhos que nos levam ao futuro.

Infância: “Acreditar por um instante em tudo o que existe, e acreditar que o mundo é perfeito e que todas as pessoas são felizes”.


Meus tempos de moleque ficaram marcados na minha memória e principalmente no meu coração. Das lembranças desta época, as mais marcantes eram as coisas absurdas que eu acreditava. Coisas que meus colegas inventavam e que um dizia para o outro, e que acabavam adquirindo status de verdades universais no inconsciente coletivo da pirralhada.

Quando caía um dente eu jogava em cima do telhado, quando não colocava embaixo do travesseiro. Acreditava que se apontasse o dedo para uma estrela, nasceria uma verruga na ponta dele. Quando tinha eclipse da lua ou do sol, tinha que ficar batendo em latas, fazendo barulho, senão o sol e a lua não iriam mais aparecer. Acreditava que se quebrasse um espelho, eu teria sete anos de azar.

Tinha medo da boneca da Xuxa, porque diziam que ela tinha um punhal no pescoço e de noite, ela matava as crianças enquanto estavam dormindo. Tinha medo do boneco do Fofão, que tinha uma cruz invertida dentro dele e que estrangulava as crianças (aliás, fiquei feliz da vida quando vi estes bonecos sendo incinerados e malhados que nem Judas lá na rua em que eu morava). Não brincava na casa de um colega e tinha medo de passar na frente, porque a mãe dele tinha um quadro de um menino chorando que a galera dizia que de noite virava um monstro, ou que virasse de ponta-cabeça, surgia a imagem do diabo.

Também achava que se tocasse o disco da Xuxa ao contrário, podia escutar a voz do coisa ruim. Tinha medo dos dias de sexta-feira e ficava assombrado com os programas do Globo Repórter que falavam sobre esse tema. Passei semanas sem dormir direito depois de ver aquela autópsia do Et que passou no fantástico, e tempos depois, a imagem do Et de Varginha. Mas até hoje tenho medo de Et’s.

Achava que se deixasse a chinela virada, a minha mãe iria morrer. Também achava que se eu estivesse deitado no chão e alguém passasse por cima de mim, tinha que despassar, senão eu não cresceria. Acreditava que o xixi do sapo cegava, assim como o pó das asas da borboleta. Ficava apavorado de colar as tripas, quando engolia, sem querer, um ciclete. Que nasceria uma planta na minha barriga se engolisse um caroço de laranja ou melancia.

Mas de tudo, o que mais que causava pânico era a chegada do ano 2000, que eu pensava que seria a data do fim do mundo. Pensava que tudo acabaria em fogo, que seria o Apocalipse, que só viveria até os 18 anos, etc. O que mais me consolava era o fato de que, se o mundo não se acabasse, poderíamos andar em carros voadores, como no desenho dos Jetsons, ou viver numa cidade futurista, como no filme “De volta para o futuro 3”.Ah! Que saudade da aurora da minha vida, de minha infância querida, dos anos que não voltam mais. Do tempo em que eu imaginava que quando fosse adulto, as coisas seriam melhores. Mas a independência e as contas a pagar dão saudades da infância.